quinta-feira, 29 de junho de 2017

Transexual guarabirense conta que saiu de casa sem apoio e qualquer ajuda financeira da família

Quem não conhece a história de Lorenzo Zimon acha que ele é apenas um rapaz que mora em João Pessoa, trabalha como DJ e produz festas. Se não fosse pela fala empoderada e pela experiência de vida, o garoto poderia ser facilmente confundido com qualquer jovem de 20 anos.
No entanto, a história de Lorenzo é dividida em duas partes, separadas por uma mudança de gênero em 2015. Lorenzo é um homem transsexual e, para chegar ao ponto de se expor a dar entrevistas e aparecer em campanhas publicitárias de conscientização, precisou mover moinhos de intolerância e preconceito.
A transformação, apesar de recente, aparece como consequência de uma vida inteira de busca por identidade. “Eu sempre soube que era trans. Desde pequeno, eu já tinha uma noção de que estava no corpo errado. Eu gostava de coisas masculinas e me via como um menino”, diz.
Família achava que era fase
A família, diz ele, sempre notou a diferença, mas acreditava ser uma fase. Por causa disso, quando adolescente, viu-se pressionado a se portar como garota e usar roupas femininas. A vida dupla que se estendeu até os 18 anos. “Eu tinha um amigo gay muito próximo e combinamos de fingir um namoro para diminuir a pressão que a gente sofria”, relembrou.
Foi esse amigo que acolheu Lorenzo na capital paraibana quando, depois de uma discussão, ele decidiu sair da casa dos pais, em Guarabira, no Agreste paraibano. Uma saída sem apoio ou qualquer ajuda financeira.
Seis meses depois, o jovem viu que era hora de, pela primeira vez, gostar do que via no espelho. Ele procurou uma cidade onde não era conhecido, Patos, e lá foi apresentado aos hormônios, primeiramente sem orientação médica, apenas com conselhos de quem trilhava os mesmos caminhos que ele. “A falta de informação gera o desespero e muitas pessoas não sabem ou não têm a quem recorrer nessa hora. Por isso que muitas pessoas morrem”, lamenta.
Vida nova na capital
Foi no Sertão que ele passou a ser chamado de Lorenzo, nome que agora leva com carinho e orgulho. Mas, de volta a João Pessoa, o jovem mostra-se firme e confiante com a bandeira que carrega. “Eu dou essa entrevista para que as pessoas vejam que a transsexualidade pode aparecer em qualquer família. Não é um distúrbio, não é uma doença ou uma fase. Simplesmente acontece porque tem que acontecer”, defende.
Em meio a tantos obstáculos derrubados, há um que persiste: a família que deixou para trás em Guarabira. É que, desde que saiu de casa, Lorenzo não teve mais contato com seus parentes. “Naquele tempo, meus pais me disseram coisas horríveis e eu lembro de dizer pra mim mesmo que ia provar que seria alguém, que eu ia vencer”, explica.
Lorenzo foi abraçado pela família da namorada, núcleo onde é bem recebido e aceito. Como agradecimento, faz o possível para conciliar o trabalho nas baladas com a ajuda que presta na loja dos sogros. “O trabalho vem crescendo. Hoje, me vejo na posição de poder ajudar pessoas a se descobrirem, a serem felizes. Nossa sociedade está evoluindo quanto a isso e estou apto a dar vez e voz a quem precisa de ajuda”, conclui.
G1PB

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