segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Trump ameaça juiz que suspendeu decreto: “Se acontecer alguma coisa, culpem-no”

Nunca o mundo esteve tão dependente de 140 caracteres, o número máximo de letras permitido pelo Twitter – o instrumento de comunicação preferido do novo e polêmico Presidente dos Estados Unidos. Neste domingo, e a partir da sua casa de férias de Mar-a-Lago, na Florida, Donald Trump voltou aos seus tweets habituais e lançou um novo ataque contra o juiz que bloqueou temporiamente o decreto de Trump que proíbe a entrada nos EUA de pessoas oriundas de sete países de maioria muçulmana.
“Simplesmente não consigo acreditar que um juiz ponha o nosso país em tamanho perigo. Se alguma coisa acontecer, culpem-no e ao sistema judicial. Pessoas a entrarem de forma descontrolada.” E termina o seu tweet com um “Mal!”.
Além desta mensagem, nas últimas horas, Trump escreveu outra sobre o mesmo tema, crítica do poder judicial: “Dei instruções à Segurança Interna para verificarem as pessoas que estão a entrar no nosso país MUITO CUIDADOSAMENTE. Os tribunais estão a dificultar muito o trabalho!”

Um juiz debaixo de fogo

Mas afinal quem é este juiz? Órgãos de comunicação social, entre os quais o The New York TimesThe Washington Post ou a CNN, falam num republicano de 69 anos que passou pela advocacia até ser nomeado por George W. Bush e confirmado por um Senado também maioritariamente republicano.
É descrito como bem-humorado, disciplinado, inteligente, rigoroso e como alguém que acredita no Estado de Direito, na independência da Justiça. Antes de ter sido nomeado, chegou a representar refugiados do sudeste asiático e também foi presidente de uma associação de Seattle que lida com crianças – e familiares – com necessidades em saúde mental.
Conhecido por dizer o que pensa, já esteve outras vezes nas notícias. Durante uma audição num caso que envolvia alegado uso excessivo da força policial e discriminação racial, respirou fundo e disse: “Black lives matter” (“As vidas dos negros também importam”, numa tradução livre da expressão que dá nome a um movimento de defesa dos direitos dos cidadãos afro-americanos).
Agora, Robart é atirado para a primeira linha da política nacional devido à suspensão de um polémico decreto presidencial que, entre várias outras medidas de Trump, tem originado indignação dentro e fora de fronteiras. Neste caso, proíbe-se a entrada nos EUA de cidadãos de sete países: Irão, Iraque, Líbia, Somália, Sudão, Síria e Iémen, durante 90 dias. O documento proíbe também a entrada, durante 120 dias, a todos os refugiados – independentemente da sua nacionalidade – que estejam em processo de entrar nos EUA, e cria um regime especial para os sírios, banidos durante um período indefinido.
Apesar de, no preâmbulo, serem invocados os atentados de 11 de Setembro, nenhum dos países de origem das pessoas envolvidas naquele atentado está na lista elencada no decreto
Aliás, desde o 11 de Setembro, nenhuma das pessoas que esteve por trás de atentados jihadistas nos EUA, e que fizeram vítimas, nasceu ou imigrou a partir de um dos sete países incluídos na ordem do Presidente. E nem um dos envolvidos eram refugiados. Eram todos americanos ou residentes legais nos EUA. Este é, aliás, o alerta que tem sido feito por académicos: o maior risco vem de dentro.
Depois de o decreto começar a ser aplicado e de o juiz federal James L. Robart ter emitido a a ordem a bloqueá-lo temporariamente, a administração Trump pediu a reposição imediata da proibição. Mas um tribunal de recurso rejeitou o pedido na noite de sábado para domingo.
Agora, os milhares que foram impedidos durante esta semana de entrar nos EUA apressam-se a viajar antes que a situação sofra alguma reviravolta.
UOL

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